Entre fissura e continuidade, minha obra se constrói a partir da matéria em estado de interrupção.
Meus trabalhos partem do vazio como espaço fértil, um intervalo que dá voz à criação, assim como a pausa dá voz à música. A ruptura, o corte, a quebra, a fratura são marcas a serem evidenciadas, não um evento a ser ocultado. São a condição geradora da forma.
O viver deixa registros que nem sempre conseguimos capturar no exato momento em que acontecem, é o cotidiano criando relações e invadindo vidas segundo a segundo. Conferir significado a estas passagens é o fio condutor da minha pesquisa.
O suporte não é meramente a mídia que recebe meu traço, ele é personagem. Traça comigo uma narrativa. Carrega na sua origem, procedência e forma, marcas e significados da mesma maneira que meu próprio corpo registra a vida.
Meu trabalho não busca restaurar uma unidade perdida, mas instaurar novas continuidades possíveis. Assim a fissura deixa de ser falha e passa a operar como estrutura, o ouro não corrige, evidencia; o corte não interrompe, reorganiza; as fibras são naturais como minha pele.
O papiro, com sua autoridade milenar e quase sagrada, recebe meus registros conectando o que passou, o que é, e o que projeto como caminho.
Entre fragmentos, costuras e superfícies tensionadas, há um espaço onde a matéria se reconfigura e o tempo se deposita em camadas.
ARTES VISUAIS
◊ São paulo, brasil